morte

07/11/2016
Funny, isn't it? The way memory works. The things you can't quite remember, and the things you can never forget.
- Grey's Anatomy

Minha primeira vez em um velório foi quando minha tia morreu. Eu tinha 5 anos e perguntei pra minha mãe porque o telefone não parava de tocar. Quando ela tentou me explicar o que era a morte, eu disse pra ela que "é quando a pessoa dorme e não acorda mais", simples assim. Lembro que nesse dia meu pai mal tinha chegado em casa (ele trabalhava de madrugada) e já tinha saído. Lembro que não fui à aula e que comi batata frita em um restaurante perto do velório. Lembro que eu e meu primo brincamos de jogar aviõezinhos de papel e eu quase acertei o olho da minha mãe com um deles. Lembro que eles serviram café naqueles copinhos de plástico e que tinha um suporte marrom muito bonito nos copinhos e que, até pouco tempo, uma das minhas tias ainda guardava alguns no armário da cozinha dela. Lembro do meu pai ajudando a carregar o caixão e da quantidade de pessoas no cemitério. Lembro que tinha muito vermelho na minha tia: roupa vermelha, batom vermelho, unha vermelha. Aparentemente, era a cor preferida dela.

Quando meu avô morreu, eu não sei...

Na verdade, é simples assim: eu não sei.

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Nunca fui uma neta presente pra ele e ele nunca foi o tipo de avô que te senta no colo e conta uma história legal. Eu nem me sinto no direito de ficar abalada com a morte dele porque, na real, não vai ter nenhuma diferença na minha rotina. Eu passava anos sem vê-lo e quando via, mal falava com ele. Sei que parece insensível, mas é a verdade.

Sem contar que é um grande sacanagem com quem convivia com ele. Imagina, eu chego lá e começo a chorar e soluçar mais do que meus primos que viam ele pelo menos uma vez na semana, que ajudaram a cuidar dele quando ele estava doente, que sabiam dos hábitos dele e conheciam as roupas que ele usava. Não é justo. Eu não queria dar um show.

Além de tudo isso, eu sou 100% contra velórios. Não vejo sentido algum em passar maquiagem numa pessoa morta e passar horas do lado dela. Aliás, não do lado dela, do lado do corpo dela, porque o que fazia a pessoa ser quem ela era já não está mais ali. Pra ser sincera, eu até acho nojento quando as pessoas ficam passando a mão naquele corpo morto. Não gosto de ter contato físico com pessoas com quem tenho pouca intimidade e fico imaginando que, se eu morrer, um monte de gente pouco conveniente vai ficar passando a mão em mim e dizendo o quão ótima eu era (o que é uma tremenda mentira, by the way).

Enfim, velórios só despertam sentimentos tristes e alimentam um sofrimento que já é esmagador por si só.

Por isso, quando ele morreu e eu decidi que ia no velório, planejei apenas chegar lá e fazer cara de triste: nem tão vazia quanto a das pessoas que conheciam ele de vista e nem tão triste quando o pessoal que fazia parte da rotina dele. Imaginem vocês minha surpresa quando me vi usando uma toalha de mão pra secar as lágrimas que não paravam de cair, tentando virar o rosto pro outro lado pra ninguém ver e contrariando todos os meus argumentos sobre rituais estúpidos.

Eu me peguei remoendo as poucas lembranças que eu tenho dele. Lembro que uma vez eu tive uma alergia no braço (o pessoal da roça chama de "cobreiro") e ele "cortou" (que é uma oração que o eles fazem pra curar essas coisas). Lembro que uma vez pedi pra ele me ensinar a saber quando ia chover e ele disse que simplesmente sabia, que não dava pra ensinar essas coisas. Também lembro que ele sempre ria quando eu fazia alguma bagunça digna de um castigo e que nunca me chamava a atenção ou gritava comigo. Lembro que quando ele ficou doente ele ria atoa de qualquer caso que você contasse, mas que também xingava todos os palavrões do mundo com uma força que parecia sair do fundo da alma. Ninguém nunca vai esbravejar um "seu fiadaputa" como meu avô fazia. Ele gostava de palavrões, tínhamos isso em comum. 

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A pior parte foi voltar pra casa e perceber o quanto a morte dele me abalou. Eu não consegui escrever uma única linha no meu TCC, tive crises de ansiedade que me fizeram querer arrancar meus dedos, minha planilha de AFO continua incompleta e desformatada e nem olhei qual matéria vai cair nas 3 provas que eu tenho essa semana. Não consegui assistir um episódio de nenhuma série sem ter que parar ou voltar nas últimas cenas porque não estava prestando atenção e se você me perguntasse qual música eu estava ouvindo eu não ia saber te responder. Minha cabeça não está comigo, ela está voando no limbo.

E eu decidi escrever, porque sei que não importa o quanto eu finja que estou bem com esse assunto, eu não estou. A senhorita "eu não sou suscetível à essas bobagens" caiu por terra. E eu sabia que enquanto eu não escrevesse isso, esse peso não ia me deixar. É tipo a Meredith e a Cristina em Grey's Anatomy: they dance it out, I write it out.

2 comentários:

  1. Acho que pra quem ficou, a morte é a lembrança de que também somos sucetíveis a isso um dia. E o ser humano é estranho e tende a reconhecer as coisas boas das pessoas só quando elas já não estão mais aqui pra ser celebrada. Eu não gosto de velórios e vou pela família que está em dor pela perda. Evito chegar perto do caixão (só cheguei perto do do meu pai na missa e porque ele seria cremado) e prefiro focar no que tem de bom. Tristeza é inevitável, assim como a própria morte. Mas passa, faz parte do nosso amadurecimento ;)

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    1. Sim, acho que amadureci muito com isso. Faz a gente pensar sobre o quão frágil a vida é. Eu também prefiro focar nas memórias boas que a pessoa deixou.

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