Filosofia e sociologia

22/09/2016

Tem coisas que acontecem na vida da gente que parecem uma premonição.

Estava voltando do almoço com um colega de trabalho e, não lembro exatamente porque, estávamos conversando sobre lixo. Eis que ele fez a seguinte pergunta:
Você acharia certo se todas as nações se unissem pra criar foguetes capazes de levar todo o lixo da Terra pra outro planeta?
E eu respondi que não. 

Porque lá na quarta série a gente aprende que o tempo geológico é diferente do tempo social. Daqui a 1 bilhão de anos esse planeta recebedor de lixo pode se modificar a ponto de ser capaz de abrigar vida. E como esse lixo vai se comportar em uma atmosfera diferente da nossa? Será que ele liberaria algum tipo de toxina capaz de mexer com toda a Via Láctea? E se nós mandarmos todos os nossos recursos não renováveis em forma de lixo pra esse outro planeta, como produziríamos os produtos que precisamos? 

E ele me respondeu:
É por isso que tem filosofia e sociologia nos cursos de engenharia.
Eu não estou cursando nenhuma engenharia, mas fiz um curso técnico completamente voltado pra essa área. Nesse curso eu aprendi que, no ponto de vista da engenharia, tudo (absolutamente tudo) é possível, mas nem tudo é viável. E não estamos falando só sobre viabilidade econômica. Há muito mais em jogo do que um orçamento ou o nível de utilização. 

Nós estamos em jogo.

E essa conversa podia ser só mais uma das conversas ordinárias que eu tenho todos os dias com qualquer pessoa, se o nosso queridíssimo (fora) Temer não tivesse aprovado a reforma do ensino médio que, dentre outras desgraças coisas, exclui a filosofia e a sociologia da grade básica do ensino médio (link da notícia).

Repito, nós estamos em jogo. E pela visão geral da situação, estamos perdendo de lavada.

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Update: hoje (23/09) o MEC disse que houve um erro no documento da reforma do ensino médio e que a sociologia e a filosofia continuam na grade. Ok, eu também já usei a desculpa do "foi mal, mandei errado" antes. Mesmo assim, vale a reflexão. 

12 comentários:

  1. Uma coisa que me fez pensar quando vi essa notícia foi um ~mas não vai fazer diferença nenhuma~, risos. Não é que eu ache essas matérias desimportantes, mas infelizmente acho que na prática, essas aulas se traduzem numa exposição de ideologias pessoais do professor ou enrolação pura (pelo menos na minha experiência). É sempre bom ver que essas aulas continuam no currículo, mas fico pensando que mais importante do que por ou tirar aulas da grade, essa tal de reforma tinha que atuar na formação de professores que pudessem efetivamente ensinar filosofia e pensar criticamente. Será que é sonhar demais?? Risos infinitos
    :***

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    1. Minha mãe ia concordar com você. Ela trabalha em uma escola estadual e vive dizendo que as aulas de socio e filo são só o professor distribuindo pontos pros alunos que pensarem da mesma forma que ele. Isso é uma pena :(
      Acho que uma reforma na educação caberia se fosse incluir matérias como finanças pessoais, política, legislação e coisas do tipo. Acho que falta muito conhecimento nessa área.

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  2. Eita, mas que blog legal que eu encontrei, por isso gosto tanto do grupo SOTMB. Nossa, eu nem quero pensar onde vamos parar porque como você disse: NÓS ESTAMOS EM JOGO. Eu gostava muito das matérias de sociologia e de filosofia no ensino médio, exatamente porque não era enrolação e nem despejamento de ideologias do professor, como a Manu citou ali em cima, claro, são casos e casos, mas no meu caso foi diferente e me ajudou a ser o que sou hoje, a saber pensar, questionar e me posicionar... Mas infelizmente não é assim pra todo mundo e agora fico pensando: se o ensino já tá essa merda e os alunos saem com pouquíssimo preparo, imagina quando nem isso tiver? Acho que em vez de construir um foguete pra levar o lixo, vou querer que ME levem!

    http://amorticinio.blogspot.com.br/

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    1. Vamos fugir pra um planeta legal e construir um lugar melhor pra viver! kkkk
      Fico pensando justamente nisso. O nosso ensino já é carente de tantas coisas, imagina ser ainda mais?

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  3. Lamentável. Mas que bom que se tratou de um "erro no documento" ~ apesar de me parecer mais uma volta atrás diante de toda a polêmica que essa decisão gerou. Assustada com os rumos da educação (e do país em geral) nesses tempos de golpe.

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    1. Você me lembrou de um meme que estava rodando no Twitter semana passada chamado "Temer recua". Era basicamente um monte de prints de notícias que tinham esse trecho no título. Com esse governo, parece que estamos numa roleta russa :(

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  4. Na minha escola a minha turma foi a primeira a ter essas matérias, no que naquela época era o novíssimo ensino médio (se você ler coisas minhas por ai vai me ver sempre me referindo a essa época como "colegial") e a gente não entendia muito bem a utilidade daquilo, mas hoje eu vejo que é o tipo de coisa essencial que muda as pessoas, que transforma... E ameaça um governo opressor. Na verdade eu acho que tem que ter filosofia e sociologia desde cedo, não com esses nomes talvez, mas algo que faça o aluno entender a importância da educação.

    E esses "erros" ai me cheiram a tentativa de trapaça. Ai quando eles veem que a coisa foi impopular, eles voltam atrás. A gente tem que ficar muito de olho e por pressão mesmo.

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    1. Sim! Acho que deveríamos ter uma reforma no sentido de incluir matérias como finanças pessoais, política, etc. Seria ótimo se a gente aprendesse na escola como a política funciona. Íamos ter cidadãos muito mais esclarecidos e, com certeza, nosso voto ia ser mais consciente.
      Temos que ficar super de olho nesse governo.

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  5. Gostaria de poder dizer que eu teria a mesma visão que você teve, mas sinceramente, não acho que teria ido tão longe. Não que eu achasse certo enviar todo o lixo do planeta para outro planeta, coisa e tal. Mas a respeito de enxergar o quão importantes são algumas matérias nas nossas vidas, coisa e tal. Na minha época de escola ninguém se esforçava de verdade por gostar muito, talvez um pouquinho, a gente se esforçava porque precisávamos dos pontos. Muita gente perdeu o amor pelo conhecimento hoje em dia, espero que existam mais pessoas como você por aí <3

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    1. Acho que vai muito da abordagem que os professores adotam pra essas matérias. Eles não explicam pra gente o porquê de estarmos aprendendo aquilo, só mandam a gente decorar tudo. Aí fica difícil se interessar mesmo...

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  6. Cara Natália.
    Teu texto está “quase” ótimo (parece uma contradição), mas para ele ficar ótimo estão faltando algumas coisas que procurarei descrevê-las. Porém antes das críticas vai a minha concordância com a linha do mesmo e o mais surpreendente, um fato ação real que empreendi nesta direção.
    Já há quase uma década fui nomeado pela direção do Instituto em que trabalhava para coordenar, junto com outra pessoa que terminou trabalhando bem mais do que eu, na criação do curso de Engenharia Hídrica do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS, na grade curricular deste curso, eu e esta outra pessoa achamos de primordial importância à introdução de disciplinas de ciências humanas no curso.
    Como a Universidade dos dias atuais é fragmentada (nesta linha vou fazer uma crítica ao teu texto) tínhamos que procurar uma disciplina lecionada por um departamento da área para lecionar a disciplina (o que na verdade tem suas vantagens e desvantagens) depois de procurarmos achou-se uma disciplina de Antropologia que nos parecia o mais próximo que desejávamos. Esta disciplina se tornou obrigatória para o curso que todos os alunos devem cursá-la. Logo, dá para ver que, velhos professores como eu, vamos até mais adiante da tua proposta, ou seja, partimos para a prática. Se olhares no currículo da Engenharia Hídrica verás que não foi colocada em qualquer ponto, foi colocada como a primeira disciplina de todo o curso.
    A crítica que faço ao teu texto é que fragmentas coisas que não deveriam ser fragmentadas, assim como é feito em todo o ensino em todos os recantos deste mundo, colocas a necessidade do estudo da filosofia e da sociologia, ou seja, duas caixinhas separadas para coisas que deveriam ser contínuas. Na verdade depois de quase quarenta anos em sala de aula de diversos cursos de engenharia, vejo que o maior limite de toda a formação intelectual de todas as pessoas nos dias atuais está exatamente nas caixinhas!
    Olhando-se como era ensinado na antiguidade e até o início da idade moderna, o ensino não era fragmentado, os alunos eram discípulos e não alunos, acompanhavam mestres que os ensinavam não separando a filosofia da matemática ou criando outra caixinha que é a sociologia, algo novo, vibrante e para mim uma verdadeiro crime ao conhecimento humano.
    Há pouco estava assistindo uma longa aula-palestra de um grande professor brasileiro sobre o trabalho de um dos grandes homens que moldou e molda o pensamento moderno, ele mostrava que o conhecimento deste sábio (nome que foi substituído por pesquisador, professor ou um nome profissional qualquer que simplesmente reduz a uma fração a identidade humana) era desdobrado em vários departamentos da Universidade e que este desmembramento produzia uma fratura sobre o grande personagem. Porém, apesar de toda esta crítica inicial este professor continuava dentro de sua caixinha que mostrava uma parte do corpo do conjunto da obra.
    Teria mais outros comentários, como coloquei no início do texto e tenho agora preguiça em retirar como objeto do mesmo, porém em outra oportunidade retorno.
    Um abraço.

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