Eu, fé e religião

03/12/2016

Aquela pessoa que consegue escrever sobre um tema mais polêmico que mamilos.

Fui criada em uma família católica. Minha mãe me ensinou a rezar pro anjo da guarda, terço, sinal da cruz. Ela me levou pra fazer catecismo, primeira comunhão e crisma. Hoje, ela é a pessoa que mais reclama do fato de eu não ir mais à igreja.

Se eu deixei de ir porque não acredito em Deus? Não, não acredito que esse seja o motivo. Então, por que eu não faço mais questão de ir?

Como eu só consigo raciocinar quando escrevo, decidi fazer esse post com algumas pontuações sobre esse assunto. Vou me arrepender? Provavelmente. Afinal, existe todo aquele tabu sobre se discutir política, religião e futebol. Desde já deixo claro que essa é apenas uma exposição dos meus sentimentos sobre a igreja e o catolicismo, sem nenhuma pretensão de criticar outras igrejas (até porque nunca frequentei nenhuma) nem de impor meu ponto de vista.

Primeiro, a igreja católica (assim como qualquer igreja protestante) é uma instituição. E, muitas vezes, a instituição passa na frente das crenças. Isso aconteceu há milhares de anos atrás e continua acontecendo hoje. Não acho que seja possível eliminar esse caráter porque 1) a igreja é composta por seres humanos, que pecam e erram como qualquer um e 2) ela precisa se manter. O que me incomoda mais é o fato de a instituição da igreja ser muito radical. Eles cometeram erros no passado, corrigiram, pediram desculpas e tá tudo bem quanto à isso; mas mesmo assim eles não consideram a possibilidade de estarem errados hoje. 

O que a igreja fala é lei irrevogável. Se ser gay é pecado, ser gay é pecado e ponto. Se aborto é assassinato, é assassinato e ponto. Daqui há alguns anos vocês vão ver essa instituição pedindo perdão pelos vacilos passados, mas sem deixar de ser inflexível. Diz o ditado que errar uma vez é humano, errar duas é burrice. Vou deixar vocês concluírem o parágrafo.

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A religião tem uma função social. Isso fica bem claro depois que a gente estuda um pouco de sociologia/psicologia. Ela usa da culpa pra moldar as ações do ser humano pra que ele se adeque à sociedade. Não, isso não é de todo ruim. Por exemplo, se uma pessoa tem a intenção de matar (outras pessoas ou si próprio), ela pode comedir esse desejo por medo do castigo divino. O problema é quando a religião passa a moldar o ser humano de acordo com as opiniões particulares de um determinado grupo, levando as pessoas à lutar bravamente por uma opinião da qual elas não partilham, cometer atos com os quais elas não concordam e que não têm nada a ver com Deus. Quer exemplos? Esse, esse e esse caso.

O ambiente da igreja em si não me agrada, principalmente pelo fato da reza coletiva. Gosto de ter intimidade com Deus, sabe? Sozinha, em silêncio, rezando apenas no meu pensamento. Na igreja (ou em qualquer reza coletiva) existem duas características que me matam por dentro. São elas:

1) as pessoas gritam, falam em voz alta, clamam. E tá tudo bem rezar desse jeito, porque eu realmente acho que você deve se comunicar com Deus da forma como você se sente mais confortável, mas eu não consigo rezar assim. Tira a minha concentração, perturba. Não consigo fazer uma introspecção, nem uma conexão com algo maior. Não dá.

2) muita gente considera que a hora da missa (ou da reza que for) é um momento de socialização, e não de fé. As pessoas vão, conversam, fofocam, fazem barulho e lançam aquele olhar julgador pras outras pessoas. E eu me pego odiando essas pessoas, julgando-as como hipócritas, enquanto a maior hipócrita dessa situação sou eu mesma, que estou plenamente ciente de que eu não fui pra igreja pra julgar as pessoas e sim pra ter uma conexão maior com Deus. No final das contas, e saio da missa com mais pecados na lista do que quando entrei.

Esses dois pontos são inerentes à minha pessoa e não tem nada a ver com a igreja ou com a fé em si, mas, como esse post é mais sobre mim do que sobre qualquer outra coisa, vale por na lista.

Nada feito em nome de Deus pode ser ruim. Exemplo, alguém vai cantar uma música na igreja e canta mal pra caramba, a letra não tem nada com nada, ficou uma bosta. Mas ninguém pode falar nada porque aquilo foi feito pra Deus. Esse é o ponto em que vocês me desculpam por ser A chata, mas, por mais que a intenção seja boa, isso não faz com que a ação seja boa. O exemplo da música é bem raso, mas isso vale pra ações mais relevantes, como obrigar alguém a praticar determinada religião ou matar em nome de Deus. Entendeu agora? A qualidade da intenção não valida a qualidade da ação (olar bancada evangélica, tudo bem com vocês?).

Muita gente acha que a fé é uma competição de popularidade. Deus me ama mais, sou a mais abençoada, sou a que peca menos, sou a que participa mais, etc. E, na boa, já me basta competições por likes das fotos do outro site (a.k.a Facebook), não precisamos disso na vida real. Até porque, de acordo com as pregações que Jesus fazia, Deus é misericordioso. Se você se arrepender de ter feito o mal e se redimir, vai ser salvo tanto quanto aquele que pecou bem menos. Jesus não foi atrás da ovelha pedida? Não celebrou quando o filho pródigo voltou? Pois é.

Pra concluir, eu só posso usar um trecho da música The Fallen, do Franz Ferdinand, que define com clareza minha relação com Deus:

So I'm sorry if I ever resisted | Sinto muito se alguma vez eu resisti
I never had a doubt that you ever existed | Eu nunca duvidei que você existia
I only have a problem when people insist on | Eu só tenho problemas quando pessoas insistem
Taking their hate and placing it on your name | Em liberar o ódio delas e usá-lo em seu nome

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Eu realmente acredito que existe mais em Deus to que qualquer religião pode delimitar e que a fé não deve ser limitada por conceitos/práticas que não te acrescentam e que não fazem você se sentir bem. Se conectar com Deus é bem mais do que ir à igreja, do que rezar o terço e etc. É o que você faz, o que você pratica e, o mais importante, o que você sente. A fé ultrapassa o conceito de religião.

Já peço desculpas desde já se eu tiver ofendido alguém com esse post, a intenção não é essa. E se você discorda de mim e/ou tem um ponto de vista diferente pra me apresentar, vou ficar agradecida se você colocar isso nos comentários. Até porque o mais importante é acrescentar, sempre.

10 comentários:

  1. Nossa, adorei o post! Sou quase atéia (como diria uma amiga), mas entendo os motivos de se acreditar em Deus. Talvez eu também tenha me afastado de tudo por muitos dos mesmos motivos que você reclama. O problema é quando as pessoas fazem pessoices estúpidas contra os outros em nome de uma religião, ou usam disso pra ter poder. Acho que se Deus existe e é onipresente, ele está em tudo, e não adianta confessar e ir na missa se a gente não muda nossos atos. E se deus está em tudo e todos, não é nem necessário ir na missa, desde que você ache essa conexão com ele da sua forma.

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    1. Eu também penso assim. Quando frequentava a igreja católica, aprendi que meu corpo era um templo, e valorizo ele muito mais do que uma casinha onde as pessoas se sentem à vontade pra colocar seus preconceitos em nome de Deus.

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  2. Olá, tudo bem?
    Menina que post é esse? fiquei chocada! Você conseguiu colocar em palavras tudo que eu penso a respeito de religião. Eu sou católica, mas raramente participo de uma missa. Eu deveria me sentir bem ao ir em uma lugar assim, mas não, por vezes me sinto sobrecarregada e não consigo lidar muito bem quando "pessoas" ficam me olhando e isso me tira do sério. Minha cidade é pequena e enquanto as pessoas deveriam estar com sua atenção depositada na palavra de Deus elas estão encarando e examinando a roupa/calçado que estou usando.
    Comparo ir a missa com visita ao cemitério no dia de finados. Qual o problema das pessoas em rezar baixo? Eu estou pensando seriamente em mudar meus períodos de visita devido a isso. Não consigo me concentrar no que eu estiver fazendo se tiver barulho.

    Adorei seu blog. Um abraço.

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    1. Minha cidade também é pequena e rola isso, todo mundo fica reparando e fofocando, é muito incômodo.
      Isso do barulho, já tentei desapegar de todas as formas e simplesmente não dá, não consigo me concentrar com gente gritando.

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  3. Me identifiquei muito com tudo o que você escreveu, assim como você eu tenha essa dificuldade. IMENSA com a igreja (e com as pessoas, ah, as pessoas...) e tudo o que ela estabelece, a forma como a bíblia é interpretada - colocando mais medo do que ensinando - e como a maioria parece só seguir aos mandamentos para obter um espaço no céu ou seja lá qual o lugar que cada um acredita ir após a morte.
    Também fui criada em um lar bem religioso, e até hoje minha mãe não aceita isso muito bem, sempre coloca como se eu estivesse precisando de ajuda com minhas dúvidas, quando na verdade eu não tenho dúvidas e sim opiniões formadas contra tudo o que ela acredita e confesso, tem um pouco de raiva aqui dentro quando o assunto se torna esse (acho que deu pra perceber rç).
    Enfim, não quero ficar aqui falando porque tenho até medo de outras pessoas além de você lerem o comentário e virar uma extensão do G1, mas eu basicamente não tenho fé alguma, me considero agnóstica por não descartar a possibilidade da existência de algo (mas não consigo aceitar a ideia de um Deus e anjos e Jesus e o Espirito Santo e aaaaaaah), e percebo que as pessoas com alguma crença costumam ser mais felizes pela esperança de algo melhor além dessa vida, mas meh, tô sempre tentando ter esperança com base no que tenho aqui do que com o que pode acontecer justamente pra evitar esse sentimento de eles-são-melhores.
    ENFIM
    Confuso pra caralho

    Novembro Inconstante

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    1. Minha mãe sempre faz esse joguinho de "você precisa agradecer", "tire suas dúvidas com Deus", mas não cola. Eu também tenho dificuldade em associar a ideia de Deus à um ser, tipo, humano. Acho que Deus é mais uma força, ou algo assim.
      É aquela coisa, não preciso de ameaça de inferno pra ser uma pessoa melhor. Odeio quando colocam du um jeito "se pecar vai pro inferno", até porque a bíblia diz completamente o oposto.

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  4. Eu tenho minhas opiniões sobre a igreja, mas vou deixar só algumas considerações. Considero que a igreja tenha uma função social, mesmo eu sendo agnóstica reconheceço que meus valores são fundamentados no cristianismo como "não matarás, não roubarás, ame o próximo, não cobiçarás o marido da outra e etc". MAs concordo com vc que ás vezes ou quase sempre a igreja aliena. Outro fator é usar-se da fé para se aproveitar das pessoas que estão em momento de desespero, ah eu odeio, abomino pessoas que fazem isso. E tem mais uma coisa que gostaria de deixar aqui. Vc já assistiu sense 8? Lá tem uma personagem indiana chamada Kala, e acredito que as conversas que ela tem com a deusa que ela cultua é uma manifestação de fé maravilhosa, pois ela fala com o coração e não por obrigação. Tenho esse meu modelo de fé, apesar de no momento não me encontrar em nenhuma rs

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    1. Sense8 ♥
      Eu super admiro a relação que a Kala tem com Ganesha, principalmente porque ela vê nele um amigo e não tem vergonha de se abrir e mostrar quem ela é.

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  5. Tudo que você escreveu é muito real, sério! Eu sou católica, praticante e por opção própria mesmo, acredito que comece daí a fé, nós não somos obrigados a acreditar, ou amar o próximo.. Minha família teve sim uma grande influência, mas o fato de eu ter encontrado meu "lugar"na igreja(grupo de jovens, amigos..) fez com que eu quisesse ficar, me aproximar e conhecer mais o que a igreja oferece.
    E mesmo quem está "inserido na igreja" sofre também..eu sempre tive meu estilo, meu jeito de vestir e tals,e quando fiz mechas azuis no cabelo PRONTO muito gente começou com falação,até mesmo minha família..
    Se você gosta de ir é porque quer ser freira e várias outras coisas..
    Mas isso tudo a gente aprende a relevar, e também me pego as vezes pegando raiva de algumas pessoas por certos exageros ou idolatrias, tendo a fé e igreja como um status e não como uma relação Deus-Você-Próximo..
    Aprendi a ouvir e guardar o que acho necessário e também o que não acho no momento mas que talvez algum dia precise, entende?
    Ter fé é uma escolha, assim como amar, mas a partir do momento que você se dedica, enfrenta, persiste, você gosta.. você caí,levanta.. e se tiver algum amigo por perto é sempre melhor!
    E Deus não pode interferir na liberdade humana que ele mesmo concedeu, por isso a Instituição por ser feita de homens cai muitas vezes, mas isso se aplica a qualquer coisa.
    Um Padre uma vez disse essa frase, acho que era de um santo, mas não lembro qual, "se não consegues amar-vos uns aos outros ao menos suportai-vos", é o que faço na maioria das vezes uahsuahsua
    E sim, é muito difícil lidar com gente que fica apenas na superfície, que acha que "não matarás" é só não matar mesmo, mas se mata com palavras também, com ofensas, julgamentos, que "amarás o teu próximo como a ti mesmo" é só amar a parte boa dos outros porque aliás "como a ti mesmo: eu sou todo bom..".
    Eu acredito numa igreja(e isso não só na minha religião,mas em todas as outras) que buscam acolher a TODOS, aliás é o que nós pregamos "Jesus veio para os pecadores; para as prostituas; leprosos...", quem nunca pecou que atire a primeira pedra!
    Um beijo, e desculpa o textão kk :)

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    1. Tem esse outro lado da moeda. Acho que quem está na igreja e quer ser diferente (ou melhor, ser você mesmo) sofre mais do que quem esta fora. É como se o fato de você estar lá dentro e fazer uma coisa que a maioria das pessoas de lá acha errado fizesse com que o seu pecado fosse maior do que o das pessoas que estão fora da igreja.
      Acho que quem se encontra na igreja e gosta de frequentar tem que fazer exatamente o que você disse: guardar as coisas boas e relevar as ruins. Porque, enfim, se ir á igreja te faz bem você não deve abrir mão disso por causa de meia dúzia de pessoas intolerantes e chatas.
      Esse "ao menos suportai-vos" é pra tatuar na testa hahahahahaha
      E os textões são muito bem vindos, pode deixar sempre :)

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