Simples

17/09/2016

Aviso: esse post meio que contém spoiler do final da sexta e início da sétima temporada de Grey's Anatomy.

Essa semana, uma amiga minha do trabalho me contou sobre uma viagem que a mãe dela fez. Ela foi pra um vilarejo de uma cidade pequena visitar uma amiga de infância. A tal amiga vive numa fazenda, entre o mato e as montanhas, naquele tipo de lugar que você só encontra se estiver procurando com muita atenção. Na casa dela não tem TV, nem rádio; porque esses meios só trazem notícias ruins e ela não está interessada em notícias ruins. Ela, o marido e os filhos trabalham num pub que só funciona nos fins de semana. Nos outros dias, eles colocam as refeições à mesa e conversavam, enquanto assistem videoclips no YouTube, e as vezes mexem com as plantas no jardim. Nenhum deles se preocupa com política, nem com FOMO, nem com as crianças que são vendidas como escravas sexuais ou se um celular que ficou ultrapassado. Uma vida simples, alguns diziam que é ignorante. Mesmo assim, tenho certeza de que, se você perguntar, essa mulher vai te dizer que ela é feliz, com plena convicção.

Feliz com uma vida simples.

Analisando por parâmetros rasos, eu tenho uma vida muito melhor do que a dessa mulher. Eu não só tenho acesso à informação o tempo todo como me interesso por ela, moro perto de um monte de mercadinhos e supermercados, numa rua asfaltada e tenho uma internet digna. Não preciso lidar com mato, nem com insetos ou cobras, tenho facilidade pra me locomover entre cidades, estou cursando administração numa faculdade federal e sou funcionária pública. Meu dia é muito mais do que sentar pras refeições com as mesmas pessoas todo santo dia e ter que conversar com elas, muito mais do que cuidar de um jardim. O contrário de uma vida simples.

E eu poderia trocar a minha vida com a dessa mulher num piscar de olhos. Trocar minha estabilidade por um trabalho incerto num pub e minha faculdade por algumas conversas e atividades no jardim, mas isso não serviria de nada. Porque, mesmo com essa vida, eu não seria feliz.

Eu queria ser o tipo de pessoa que consegue ser feliz com uma vida simples, mas não sou.

Eu fui a primeira menina da quarta série a usar maquiagem e fui a primeira a tirar. Visitava a biblioteca ao invés da cantina e gostava de prestar atenção nas músicas da rádio da escola ao invés de prestar atenção nos meninos. Eu não reclamava se um professor não dava aula direito e não reclamava quando a matéria ficava difícil demais. Eu não queria soltar meu cabelo, chamar atenção de um garoto, casar com ele ou formar uma família. Nunca busquei uma vida simples. Eu não sabia o que eu queria da vida - continuo não sabendo, mas sempre soube que queria mais, bem mais do que uma vida simples.
Nossa, eu conhecia essas moças. Estudei na mesma escola com elas. Engraçado. Eu costumava sentir pena delas. São moças simples. Tudo que querem é encontrar um rapaz e se casar, sabe? E viver. Sei lá, acho que, ou você nasce simples, ou nasce...como eu. Quero ser a pessoa que fica feliz por encontrar o vestido perfeito. Quero ser simples. Porque ninguém aponta um revólver para a cabeça de uma garota simples.
Christina Yang - Grey's Anatomy

Acontece que estou perdida no meio das minhas escolhas. Estou perdida do caos que eu mesma criei e invejando profundamente uma vida simples, mesmo sabendo que ela não me serve.

E é aí que eu paro e penso: se nenhuma dessas vidas me serve, que tipo de vida eu deveria ter?

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E, infelizmente, essa é uma pergunta que ainda não sei como responder.

4 comentários:

  1. Eu nasci e vivi até os 11 anos nessa "vida simples" que você citou, no meio do mato, sem internet, poucos meios de comunicação, poucas pessoa, poucas notícias, poucas informações, e fui feliz. Mas isso não bastava, eu queria mais, e ainda quero. Fui pra cidade, conheci um novo universo e continuo a conhecê-lo, e fico deslumbrada com cada nova descoberta ainda hoje. Se eu continuasse lá, estaria vivendo essa vida simples, talvez continuaria feliz, mas estaria incompleta, pois essa sede de informação que tenho não seria saciada. Não posso dizer que agora estou feliz, mas também não sei dizer se estaria feliz lá naquela simplicidade. A gente busca o simples, mas vive no complicado, no desafiador, nunca nos aquietamos. Essa é a aventura do mundo moderno, em vez de sairmos caçar para nos alimentar, caçamos informações, conhecimento, exploramos o mundo... Mas não vou dizer que isso não é uma espécie de felicidade também.

    http://amorticinio.blogspot.com.br/

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    1. Concordo com você. Mesmo que a ignorância e a simplicidade sejam boas, não dá pra dizer que sair pra caçar é ruim. É uma necessidade que a gente precisa saciar (por mais que, em alguns momentos, seja doloroso).

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  2. Yang ❤ uma das minhas personagens preferidas, me identifico demais.

    Eu entendo MUITO tudo que disse. Muitas vezes eu queria ser uma dessas pessoas que não pensa TANTO sobre tudo o tempo todo. Que consegue ignorar o monte de coisas ruins que acontecem por aí e ser feliz com o pouco que tem, ou com uma vida simples. Mas eu não sou assim. Eu não sei se quero casar, eu não sei se quero ter filhos, nesse momento eu pouco sei sobre a minha profissão e futuro (e isso fica martelando o tempo todo na minha cabeça, principalmente na hora de dormir - ou tentar dormir, né?). A vida não tá maravilhosa e não tô plenamente feliz agora (se é que é possível -pra mim- chegar nesse nível de felicidade), mas sei que tentar me forçar a ser uma pessoa que não sou não vai mudar isso. É complicado, haha.

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    1. Yang também é uma das minhas personagens preferidas, eu queria ser tão forte quanto ela :)
      Isso de pensar tanto sobre as coisas é terrível, mas concordo com você. Tentar mudar e se forçar a ser uma pessoa que não é pode ser pior.

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